Uma pesquisa publicada na revista Nature Medicine sugere que as pessoas podem perder mais peso evitando alimentos ultraprocessados, mesmo aqueles que são normalmente considerados saudáveis. Este é o maior ensaio clínico já realizado a examinar os efeitos de alimentos ultraprocessados no peso.
Os voluntários perderam o dobro de peso quando seguiram dietas compostas por alimentos minimamente processados, como macarrão, frango, frutas e vegetais, do que quando seguiram dietas com alimentos ultraprocessados que atendiam aos padrões nutricionais, como refeições congeladas prontas para aquecer, cereais matinais, barras de proteínas e shakes.
Alertas das autoridades federais dizem que os alimentos ultraprocessados, que representam cerca de 70% do suprimento alimentar nos Estados Unidos. Robert F. Kennedy Jr., secretário de saúde, afirmou que os alimentos ultraprocessados estavam “envenenando” os americanos e os classificou como os principais culpados pelas altas taxas de obesidade e doenças crônicas.
Embora outras pesquisas tenham relacionado alimentos ultraprocessados à obesidade, a maioria é observacional, ou seja, não é possível provar que os alimentos causam diretamente o ganho de peso.
Duas pesquisas anteriores constataram que adultos consumiam cerca de 500 a 800 calorias a mais o dia quando suas dietas eram compostas por alimentos ultraprocessados do que quando eram compostas por alimentos minimamente processados. Esses estudos, no entanto, foram curtos, sendo o maior deles, conduzido pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), com 20 participantes que seguiram cada dieta por apenas duas semanas.
Críticos argumentaram que os resultados poderiam ter sido diferentes se os estudos fossem mais longos ou se incluíssem alimentos ultraprocessados mais saudáveis.
Essa nova pesquisa, embora ainda pequena, foi elaborada para abordar algumas dessas preocupações, segundo Samuel Dicken, pesquisador da University College London e principal autor do estudo.
A equipe recrutou 55 participantes, sendo a maioria mulheres, com idades entre 20 e 60 anos. Todos tinham índices de massa corporal na faixa de sobrepeso ou obesidade e, antes do estudo, cerca de dois terços de suas calorias vinham de alimentos ultraprocessados (mais do que a média dos adultos no Reino Unido).
Os estudiosos elaboraram duas dietas e forneceram as refeições. Ambas atendiam ás diretrizes nutricionais do Reino Unido, com teores limitados de açúcar, gorduras saturadas e sódio. Uma delas, entretanto, era composta principalmente de alimentos minimamente processados, como aveia em flocos, iogurte natural e espaguete á bolonhesa feito na hora. A outra, por sua vez, era composta principalmente de alimentos ultraprocessados considerados saudáveis, como cereais matinais integrais, leite vegetal, iogurte saborizado e lasanha congelada.
Metade dos participantes seguiu a dieta minimamente processada por dois, e depois retornou á dieta normal por um mês. Em seguida, seguiram a dieta ultraprocessada por dois meses. A outra metade seguiu as dietas na ordem inversa. Todos podiam comer o quanto quisessem.
Esse tipo de desenho de estudo “cruzado” é forte porque pode mostrar como cada dieta afetou cada participante, em vez de calcular a média das respostas de um grupo, de acordo com Brenda Davy, professora de nutrição na Virginia Tech, que não estava envolvida no estudo.
Grande parte dos participantes perdeu peso com ambas as dietas. Mas, em média, emagreceram mais durante os dois meses com a dieta minimamente processada (cerca de 1,8 kg, em comparação com apenas 1 kg com a dieta ultraprocessada).
Dicken e seus colegas estimaram que, se a perda de peso tivesse continuado por um ano, mesmo que naturalmente diminua com o tempo, poderia ter adicionado de 9% a 13% do peso corporal com a dieta minimamente processada, em comparação com apenas 4% a 5% com a dieta ultraprocessada.
Os voluntários também perderam mais que o dobro de gordura corporal na dieta minimamente processada do que na dieta ultraprocessada.
Kevin Hall, cientista nutricional e coautor do estudo, admite surpresa com o resultado e ressalta o quanto é ‘encorajador’ que as pessoas tenham perdido peso com a dieta ultraprocessada. Isso provavelmente ocorreu porque a dieta ultraprocessada do estudo era mais nutritiva do que as dietas típicas dos participantes. Mas os voluntários, ainda assim, perderam mais peso com a dieta minimamente processada, uma descoberta que se alinha com as de estudos anteriores.
Isso pode acontecer porque alimentos minimamente processados tendem a ter menos calorias por mordida, especula Filippa Juul, epidemiologista nutricional da Universidade de Ciências da Saúde SUNY Downstate, que não participou da pesquisa. Esses alimentos costumam ter uma textura mais dura, que existe mais mastigação. Portanto, as pessoas podem comer mais devagar e consumir menos calorias antes de se sentirem satisfeitas.
Os participantes também relataram um maior controle sobre os desejos por comida com a dieta minimamente processada. Isso é surpreendente, segundo Dicken, porque “quando as pessoas perdem peso, tendem a querer comer mais”. Um melhor controle dos desejos pode ajudá-las a manter o peso perdido por mais tempo, diz a especialista.
Juul acredita que, talvez, seguir uma dieta composta principalmente de alimentos minimamente processados possa “reiniciar os desejos” e reduzir o “ruído alimentar”, ajudando as pessoas a comerem apenas quando estiverem com fome.
O estudo ainda é considerado curto, segundo o que escreveu Walter C. Willett, professor de epidemiologia e nutrição da Escola de Saúde Pública TH Chan de Harvard, que não participou do estudo. “Precisamos de cerca de um ano, no mínimo, para estudos sérios sobre perda de peso, porque as mudanças iniciais muitas vezes se revertem ou não se mantêm”, acrescentou.
Os cientistas não conseguiram mensurar exatamente o que e quando as pessoas comeram, nem quanto consumiram. Os participantes, por sua vez, relataram comer alguns alimentos além dos fornecidos. A maioria dos voluntários eram mulheres; homens ou crianças podem ter respondido de forma diferente.
“Ainda assim, o estudo sugere que, mesmo que uma pessoa siga uma dieta saudável, há um benefício adicional em escolher alimentos minimamente processados em vez dos ultraprocessados. Evidências consistentemente sugerem que dietas ricas em alimentos ultraprocessados podem dificultar a manutenção de um peso saudável”, destacou Juul.
Evitar alimentos ultraprocessados pode ser um desafio, já que eles são tão onipresentes e tendem a ser mais baratos do que os minimamente processados. Por isso, Juul aconselha escolher alimentos com ingredientes reconhecíveis. “Os fabricantes de alimentos poderiam ajudar produzindo mais produtos minimamente processados que sejam práticos, acessíveis e atraentes. É uma mudança na cultura alimentar que é necessária”, afirma a especialista.
Você não precisa cortar completamente os alimentos ultraprocessados. Mas tente cozinhar em casa o máximo possível, priorizando frutas e vegetais frescos, proteínas magras e grãos integrais, como conclui Davy.
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