Realizado com mais de 3 mil pessoas, um estudo mostrou que o jejum intermitente pode deixar de ser eficaz depois de uma certa idade. Ficar longos períodos sem comer também está associado a um acúmulo mais rápido de doenças crônicas.
Pesquisadores de Estocolmo, na Suécia, publicaram uma pesquisa no Journal of Internal Medicine, indicando que os adultos mais velhos que habitualmente ficavam mais tempo sem comer, entre 14 e 24 horas, acumularam doenças crônicas mais rapidamente do que aqueles que se alimentavam com mais frequência ao longo do dia.
O padrão foi notado em adultos com 78 anos ou mais, mas não em adultos mais jovens. Portanto, o achado sugere que os riscos de longos períodos de jejum podem aumentar com a idade.
Os cientistas dizem que mais da metade dos adultos com mais de 60 anos já convive com múltiplas doenças crônicas simultaneamente. O surgimento de mais doenças em um curto período significa mais medicamentos, mais consultas médicas, maior perda de independência e um risco maior de morte prematura.
Se o fato de comer em menores períodos ajuda a ter menos problemas, os resultados dessa nova pesquisa têm um peso real e significativo.
A pesquisa analisou dados de 2.981 pessoas com 60 anos ou mais, acompanhadas por até 15 anos. Os participantes informaram os horários habituais das refeições e foram divididos em quatro grupos conforme o intervalo diário sem alimentação: de 6 a 11,5 horas; de 11,5 a 12,75 horas; de 12,75 a 14 horas; e de 14 a 24 horas.
Durante o acompanhamento, os pesquisadores monitoraram doenças em 60 categorias, com base em exames, avaliações médicas, prontuários e registros nacionais de saúde.
Os voluntários que permaneciam entre 14 e 24 horas sem comer apresentaram uma taxa significativamente maior de acúmulo de doenças crônicas. Cada hora adicional de jejum também esteve associada a uma maior velocidade anual de surgimento de novas condições.
A associação foi observada principalmente em doenças cardiovasculares e problemas cerebrais e de saúde mental. Já as doenças ósseas e articulares não apresentaram um padrão consistente.
O efeito foi mais evidente entre os participantes com 78 anos ou mais. Nesse grupo, os períodos mais longos sem alimentação estiveram associados a um acúmulo mais rápido de doenças. Entre os adultos com menos de 78 anos, não foi identificada uma associação estatisticamente significativa.
Segundo os pesquisadores, uma possível explicação são as mudanças naturais provocadas pelo envelhecimento no sistema digestivo. Com a idade, o organismo pode produzir menos ácido estomacal e enzimas digestivas, dificultando a absorção de nutrientes como vitamina B12, cálcio e ferro.
Outro fator é a perda de massa muscular. O tecido muscular envelhecido responde menos às proteínas dos alimentos, e intervalos muito longos entre as refeições poderiam reduzir esses estímulos nutricionais.
Além disso, muitos idosos utilizam medicamentos que precisam ser tomados com alimentos para melhorar a absorção ou reduzir efeitos adversos.
No entanto, os autores ressaltam que a pesquisa não prova que o jejum prolongado cause diretamente doenças. Como o estudo é observacional, os resultados mostram apenas uma associação.
A pesquisa também foi realizada com uma população específica de idosos na Suécia, o que limita a aplicação dos resultados a outros grupos.
Ainda assim, o longo período de acompanhamento e a consistência dos resultados reforçam a necessidade de investigar como o jejum pode afetar a saúde em diferentes fases do envelhecimento.