Um estudo apresentado no congresso anual da Sociedade Radiológica da América do Norte (RSNA) diz que a forma como a gordura se distribui no corpo pode dizer mais sobre o risco cardíaco do que o peso mostrado na balança.
A pesquisa acompanhou 2.183 adultos entre 45 e 74 anos (43% mulheres) e sem histórico de doença cardiovascular (o que permitiu aos pesquisadores avaliar alterações sutis no coração antes de qualquer diagnóstico clínico).
O objetivo do estudo foi comparar duas medidas diferentes: o IMC, que avalia o peso total, e a relação cintura-quadril, que indica onde a gordura está acumulada.
A equipe tinha intenção de entender se a gordura localizada na barriga, conhecida também como obesidade abdominal ou ‘barriga de chope’, teria impacto próprio sobre a estrutura cardíaca. Para isso, todos os voluntários passaram por exames detalhados de ressonância magnética do coração.
Os pesquisadores analisaram especialmente a massa do ventrículo esquerdo, os volumes das cavidades cardíacas e outras medidas que mostram como o coração se adapta a diferentes condições metabólicas.
Os resultados mostraram que a gordura abdominal está associada a um padrão específico de remodelação do coração. A cada aumento de 0,1 ponto na relação cintura-quadril, os pesquisadores observaram redução dos volumes diastólicos dos ventrículos, o que significa que o coração passa a acomodar menos sangue a cada batida, além do aumento da massa do ventrículo esquerdo, indicando espessamento do músculo cardíaco.
Essas mudanças apareceram mesmo em pessoas sem qualquer doença cardíaca conhecida, o que sugere que a obesidade abdominal pode influenciar o coração de forma silenciosa e precoce. Esse tipo de remodelação (músculo mais espesso e cavidades menores) é considerado mais preocupante porque costuma anteceder o surgimento de sintomas.
O IMC elevado, por outro lado, não apresentou o mesmo padrão. Pessoas com peso total mais alto, mas sem grande acúmulo de gordura abdominal mostraram diferenças nas imagens cardíacas, sem o mesmo tipo de espessamento muscular.
Essas informações reforçam que duas pessoas com o mesmo peso podem ter riscos muito distintos, dependendo de onde a gordura está localizada.
Ademais, o experimento identificou diferenças entre homens e mulheres. Embora ambos os sexos apresentassem alterações ligadas á gordura abdominal, os efeitos foram mais fortes nos homens, possivelmente devido a padrões típicos de acúmulo de gordura na região central do corpo.
Os autores destacam que essas descobertas não provam uma relação de causa e efeito, ou seja, não significa que toda pessoa com gordura abdominal vai desenvolver doença cardíaca. Por se tratar de um estudo observacional, ele mostra associações, não determina resultados inevitáveis. Ainda assim, o fato de alterações surgirem antes de sintomas preocupa os especialistas.
Pensando nisso, os pesquisadores defendem que a avaliação do risco cardiovascular inclua, além do IMC, medidas simples como a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril. Eles pontuam que esses parâmetros podem ajudar a identificar quem tem maior probabilidade de desenvolver sobrecarga cardíaca no futuro.
As recomendações seguem as mesmas: alimentação equilibrada, atividade física regular e acompanhamento médico são medidas que reduzem tanto o acúmulo de gordura abdominal quanto o risco de alterações cardíacas. Entretanto, com os novos dados, acompanhar o aumento da circunferência da cintura ganha ainda mais relevância para detectar riscos precoces.