A semaglutida, princípio ativo dos medicamentos Ozempic e Wegovy, é capaz de preservar melhor a massa muscular durante a perda de peso, comparada à tirzepatida, do Mounjaro. Ambas as substâncias são utilizadas no tratamento contra o diabetes tipo 2 e a obesidade.
O trabalho foi disponibilizado como um pré-print, ou seja, ainda não foi revisado por outros pesquisadores e publicado em uma revista científica.
O experimento analisou informações sobre composição corporal vinculadas a prontuários eletrônicos de 570.422 usuários americanos de análogos de GLP-1, disponíveis em sistemas de saúde do país.
Os remédios simulam a ação do hormônio GLP-1, que promove a saciedade e retarda o esvaziamento gástrico. Com isso, o indivíduo sente menos fome e perde até cerca de 20% do peso corporal, de acordo com os testes clínicos dos fármacos, um percentual alcançado de forma inédita com medicamentos.
No estudo, 456.742 dos pacientes foram tratados com semaglutida e 213.680 com tirzepatida. Dentre os voluntários, 7.965 indivíduos tiveram medições coletadas de composição corporal antes e depois do início do tratamento, ao longo de 12 meses.
Ao avaliar os dados desse grupo, os pesquisadores observaram uma perda maior de massa corporal magra entre aqueles que utilizavam a tirzepatida.
Essa perda foi 1,1%, 1,5%, 1,3% e 2% maior, respectivamente, aos 3, 6, 9 e 12 meses do acompanhamento. Cerca de 10,3% dos pacientes com tirzepatida tiveram uma redução de 20% do peso, mas 5% foi de massa magra. Essa proporção foi de 6,7% entre aqueles que usaram a semaglutida.
Ao compararem as anotações clínicas presentes nos prontuários durante o tratamento, os pesquisadores constataram que a redução da tolerância ao exercício físico foi o fato que teve a maior correlação com a perda de massa magra.
“Neste estudo de composição corporal em condições reais, a tirzepatida (Mounjaro, Zepbound) foi associada a uma perda significativamente maior de massa corporal magra do que a semaglutida (Wegovy, Ozempic). A mensagem para pacientes e clínicos é importante: o número na balança é apenas parte da história. Preservar força, mobilidade e resiliência metabólica também importa”, escreveu Venky Soundararajan, doutor em Engenharia Biológica pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e fundador da nference, empresa de análise de dados em saúde responsável pelo estudo, em publicação no X.
O especialista destacou que o futuro do cuidado contra a obesidade não será definido apenas pela perda de peso, mas também “pelo tipo de tecido que está sendo perdido, pela função que está sendo preservada e pela biologia que está sendo transformada”.
Alguns medicamentos em desenvolvimento buscam preservar a massa muscular durante o uso de canetas emagrecedoras, já que até 40% do peso perdido pode corresponder à massa magra. Um dos mais promissores é o bimagrumabe, que, em estudo de fase 2 publicado na Nature Medicine, mostrou que pacientes tratados com a droga em combinação com semaglutida perderam 22,1% do peso corporal, sendo 92,8% dessa perda proveniente de gordura. Já com a semaglutida isolada, apenas 71,8% da perda foi de gordura, com maior redução de massa muscular.
O bimagrumabe atua bloqueando um receptor ligado à perda muscular e ainda está em desenvolvimento clínico. Atualmente, a Eli Lilly também testa sua combinação com a tirzepatida (Mounjaro), que pode potencializar os resultados, com expectativa de divulgação dos dados em breve.