Sabia que existe uma relação entre sintomas depressivos na meia-idade e a demência? É o que indica um novo estudo publicado na revista The Lancet Psychiatry.
A análise, conduzida por uma equipe do University College London, no Reino Unido, identificou seis sinais específicos associados a uma probabilidade maior da doença neurodegenerativa no futuro.
“Nossos resultados mostram que o risco de demência está ligado a um conjunto específico de sintomas depressivos, e não à depressão como um todo. Essa abordagem baseada nos sintomas nos dá uma visão muito mais clara de quem pode ser mais vulnerável décadas antes do desenvolvimento da demência”, afirma o psicólogo epidemiológico Philipp Frank, em comunicado.
O estudo utilizou dados de 5.811 pessoas que participaram de um estudo longitudinal iniciado no fim da década de 1990. Na época da primeira avaliação, entre 1997 e 1999, os participantes tinham de 45 a 69 anos e não apresentavam diagnóstico de demência.
Os cientistas coletaram informações detalhadas sobre a saúde mental dos participantes e, ao longo de cerca de duas décadas, acompanharam sua evolução clínica. Os diagnósticos de demência foram identificados por meio de prontuários médicos e registros oficiais de saúde até o ano de 2023.
Durante a fase de acompanhamento, 10,1% dos voluntários desenvolveram algum tipo de demência. A análise ainda mostrou que pessoas que relataram cinco ou mais sintomas de depressão na meia-idade apresentaram um risco 27% maior de receber o diagnóstico de demência no futuro.
Os autores ressaltam que o estudo não permite afirmar que esses sintomas causam demência, por se tratar de uma pesquisa observacional, ou seja, que identifica associações estatísticas. Ainda assim, os achados sugerem que certos padrões emocionais e cognitivos podem funcionar como sinais precoces de alterações na saúde cerebral.
“Os sintomas comuns que muitas pessoas experimentam na meia-idade parecem conter informações importantes sobre a saúde cerebral a longo prazo. Prestar atenção a esses padrões pode abrir novas oportunidades para a prevenção precoce”, explica Frank.
Ademais, a pesquisa contribui para uma compreensão mais detalhada da depressão, que não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas. Os pesquisadores destacam que os sintomas podem variar bastante e, muitas vezes, se sobrepor aos da ansiedade. Isso torna o diagnóstico e o acompanhamento mais complexos.
Os próprios autores reconhecem limitações importantes no experimento. Como, por exemplo, o fato do estudo ter sido realizado apenas no Reino Unido e incluir, majoritariamente, funcionários públicos, um grupo considerado mais saudável do que a média da população. Por isso, a incidência e demência observada foi menor do que a registrada no conjunto da população britânica.
Ainda assim, os pesquisadores avaliam que os dados oferecem um ponto de partida importante, sobretudo um cenário de envelhecimento acelerado da população mundial e aumento esperado dos casos de demência nas próximas décadas.
“A depressão não tem um formato único. Os sintomas variam muito e frequentemente se sobrepõem aos da ansiedade. Descobrimos que esses padrões sutis podem revelar quem tem maior risco de desenvolver distúrbios neurológicos. Isso nos aproxima de tratamentos de saúde mental mais personalizados e eficazes”, conclui a epidemiologista Mika Kivimäki.
Apesar do aumento geral do risco entre aqueles com mais sintomas depressivos, os cientistas observaram que o efeito foi impulsionado por apenas seis sinais específicos, entre os 30 avaliados na pesquisa.
São eles: perda de confiança, dificuldade em lidar com problemas, falta de afeto pelos outros, nervosismo constante, dificuldade de concentração e insatisfação com a execução das tarefas.
Dentre esses fatores, a perda de confiança e a sensação de não conseguir enfrentar problemas cotidianos tiveram o impacto mais expressivo. Cada um deles esteve associado a um aumento de cerca de 50% no risco de demência ao longo do tempo.
Por outro lado, sintomas frequentemente relacionados à depressão, como alterações no sono e ideação suicida, não apresentaram correlação significativa com o diagnóstico de demência no acompanhamento de longo prazo.