Um estudo publicado na revista científica Nature Medicine indica que a idade registrada na certidão de nascimento pode ser diferente de alguns órgãos e tecidos.
Isso significa, por exemplo, que alguém de 50 anos pode apresentar tecidos com características compatíveis com uma idade biológica maior ou menor.
Os cientistas chegaram à conclusão após desenvolverem “relógios dos tecidos”, modelos capazes de estimar a idade biológica a partir de alterações microscópicas provocadas pelo envelhecimento.
A pesquisa avaliou 25.712 imagens histopatológicas de 40 tipos de tecidos de 983 pessoas. Com ajuda de inteligência artificial, os cientistas identificaram características relacionadas à idade e compararam a estimativa obtida com a idade cronológica de cada indivíduo.
Os modelos apresentaram erro absoluto médio de 4,88 anos na estimativa da idade. A diferença entre a idade prevista pelo tecido e a idade cronológica foi chamada pelos estudiosos de “lacuna de idade”.
Quanto maior a lacuna positiva, mais envelhecido o tecido aparentava estar em relação à idade da pessoa. Os pesquisadores identificaram indivíduos com envelhecimento acelerado em vários tecidos e outros nos quais apenas determinados órgãos apresentavam uma idade biológica maior.
Entre as principais alterações associadas ao envelhecimento estavam a atrofia dos tecidos, fibrose, redução de pequenos vasos sanguíneos e menor proliferação de células epiteliais. Os tecidos biologicamente mais velhos também apresentaram associação com telômeros mais curtos e maior presença de alterações patológicas.
O trabalho não determina uma idade padrão para cada órgão, mas mostra quanto determinados tecidos podem estar biologicamente mais velhos ou mais jovens em relação à idade cronológica de cada pessoa.
Essas ligações não significam que uma doença necessariamente provoque o envelhecimento acelerado do órgão. Parte das análises envolvendo doenças, características demográficas e estilo de vida foi exploratória e não permite estabelecer relação direta de causa e efeito.
Os profissionais também testaram uma estratégia para estimular o envelhecimento específico dos tecidos a partir de informações de expressão gênica encontradas no sangue. A proposta abre caminho para que, futuramente, métodos menos invasivos possam ajudar a acompanhar o envelhecimento de diferentes órgãos.
Agora, os “relógios dos tecidos” são uma ferramenta de pesquisa e não funcionam como um exame disponível para descobrir a idade de cada órgão. A análise depende de amostras de tecidos e ainda precisa ser validada em populações maiores e mais diversas.
No entanto, os resultados reforçam que envelhecer não é um processo uniforme. Essas informações podem ajudar pesquisadores a compreender melhor a relação entre idade, funcionamento dos órgãos e desenvolvimento de doenças.