Uma nova pesquisa publicada no British Journal of Sports Medicine sugere que os pequenos esforços do dia a dia, como subir escadas tradicionais em vez da rolante ou carregar compras diárias, quando feitos em alta intensidade, podem ter impactos importantes na saúde do coração.

O estudo analisou dados de mais de 22 mil pessoas que se declaravam não praticantes de exercícios físicos. Todas usaram acelerômetros no pulso, capazes de identificar não apenas o quanto se movimentavam, mas também a intensidade nos movimentos.
O foco central era em ‘vigorou intermitente lifestyle physical activity’ (VILPA), ou seja, atividade física vigorosa feita de forma intermitente no cotidiano. Isso indica qualquer tarefa do dia a dia realizada com movimentos intensos de curta duração.
Dentre as mulheres, apenas um a quatro minutos por dia desse tipo de esforço mais intenso já se associaram a uma redução no risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto e insuficiência cardíaca. Portanto, não se trata de exercício estruturado, academia ou treino elaborado e planejado. São picos curtos de esforços intensos, muitas vezes com menos de um minuto, diluídos ao longo do dia. O resultado chamou a atenção dos cientistas.
Na prática, a média observada no estudo foi de 3,4 minutos diários. Esse volume esteve associado a 45% menos risco de eventos cardiovasculares maiores, 51% menos risco de infarto e 67% menos risco de insuficiência cardíaca.
Entre os homens, no entanto, a resposta foi menos consistente. Além de mais fracas, as associações não alcançaram significância estatística em vários desfechos. Os autores indicam que isso não significa que o esforço do dia a dia não traga benefícios para os homens, mas sugere que, para eles, o exercício estruturado ainda parece ter um papel mais claro na proteção cardiovascular.
Uma das hipóteses por trás dessa diferença está na fisiologia. Em média, mulheres têm menor capacidade cardiorrespiratória. Isso significa que uma mesma tarefa cotidiana, como subir escadas rapidamente, pode representar um esforço relativo maior para elas.
Os dados do estudo mostram que, durante esses picos de atividade intensa, as mulheres chegavam, em média, a 83% da sua capacidade máxima de consumo de oxigênio (VO₂ máximo). Entre os homens, esse esforço ficava em torno de 70%.
Para os autores, os resultados reforçam a ideia de que, muitas vezes, não existe uma recomendação única de atividade física que sirva para todos. Eles apontam a necessidade de diretrizes mais específicas por gênero na prevenção das doenças cardiovasculares.
Não há métodos “milagrosos”
Apesar dos resultados positivos, os cientistas não quer transformar “três minutos por dia” em um método milagroso. O estudo é observacional, ou seja, não prova causa e efeito, mas identifica associações, que se mantiveram mesmo após vários ajustes estatísticos e análises de sensibilidade.
Na prática, isso significa que os pesquisadores acompanharam o que aconteceu na vida real, sem interferir no comportamento dos voluntários. Isso permite observar padrões, mas não afirmar com certeza que um fato foi o responsável direto pelo outro.
Um caminho para avançar nesse sentido seria testar intervenções planejadas, como incentivar um grupo a subir escadas rapidamente, enquanto outro mantém a rotina habitual, e acompanhar ambos ao longo do tempo.
Além disso, os dados vém do UK Biobank, uma coorte grande e bem acompanhada. Mas, ainda assim, é composta majoritariamente por pessoas brancas, com maior escolaridade e melhores condições de saúde do que a média da população. Isso limita a generalização dos resultados para outros grupos, que podem ter contextos sociais e hábitos de vida diferentes, como alimentação, consumo de álcool e tabagismo, fatores que também influenciam o risco cardiovascular.
Por fim, o estudo não diz que o exercício físico estruturado deixou de ser importante. O que os autores sugerem é que se movimentar, mesmo em atividades simples do cotidiano, como trocar o elevador pelas escadas, já pode ser um primeiro passo importante para a saúde do coração.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), aliás, recomenda pelo menos 150 minutos de atividade física de intensidade moderada ou 75 minutos de atividade física de intensidade vigorosa por semana.
