Uma nova tendência nas redes sociais tem chamado a atenção de especialistas em nutrição e saúde mental. Conhecida como “plastic eating”, a prática consiste em mastigar alimentos envolvidos em plástico e depois cuspi-los, com a intenção de sentir o sabor sem ingerir as calorias.

O comportamento ganhou visibilidade inicialmente no Douyin, versão chinesa do TikTok, e depois chegou a outras plataformas. Vídeos com a prática passaram a circular em países da Europa e da América, levantando preocupações sobre os possíveis riscos físicos e psicológicos.
Especialistas ouvidos pelo La Nación afirmam que o comportamento não deve ser tratado como uma simples brincadeira ou desafio, mas como uma prática alimentar de risco que pode estar relacionada a transtornos alimentares.
Segundo Laura Salzman, nutricionista e presidente do Conselho de Nutricionistas da Província de Buenos Aires, o comportamento reproduz características observadas em pessoas com transtornos alimentares, como restrição extrema, culpa e uma relação dissociada com a comida.
A prática de mastigar e cuspir alimentos, conhecida como chew and spit, já é observada em pacientes atendidos por clínicas especializadas em transtornos alimentares. Quando esse comportamento é apresentado como tendência nas redes sociais, existe o risco de que atitudes consideradas prejudiciais sejam normalizadas.
Para a especialista, a situação é especialmente preocupante entre adolescentes, que ainda estão em fase de desenvolvimento e podem ser mais vulneráveis à pressão relacionada à aparência corporal.
A restrição alimentar nessa fase pode afetar o crescimento e o desenvolvimento, além de estar associada a ansiedade, isolamento social e outras dificuldades relacionadas à saúde mental.
Há riscos físicos imediatos
Além das possíveis consequências psicológicas, o comportamento também apresenta riscos físicos. O médico Ramiro Heredia, do Hospital Clínico José de San Martín, da Universidade de Buenos Aires, alerta principalmente para o risco de sufocamento provocado pelo plástico utilizado para envolver os alimentos.
A nutricionista também aponta que mastigar e cuspir pode reforçar ciclos de restrição alimentar, culpa e ansiedade em relação à comida, além de interferir na percepção de fome e saciedade.
Por que o conteúdo viraliza?
Para o psicólogo Sergio Héctor Azzara, as redes sociais funcionam como “amplificadores culturais”. Quando comportamentos extremos são apresentados repetidamente em vídeos curtos, com tom humorístico ou estética atraente, podem começar a parecer normais.
Os algoritmos também podem contribuir para esse processo ao recomendar conteúdos semelhantes aos que despertaram o interesse do usuário. Dessa forma, uma pessoa que assiste a vídeos sobre dietas, perda de peso ou imagem corporal pode passar a receber cada vez mais publicações sobre esses temas.
O fenômeno pode ser particularmente relevante entre adolescentes, que estão entre os grupos mais presentes nas redes e podem buscar nesses conteúdos formas de pertencimento ou aceitação social.
Pais devem ficar atentos aos sinais
Especialistas recomendam que familiares observem mudanças repentinas na relação dos adolescentes com a comida, como preocupação excessiva com calorias e peso, restrição de determinados alimentos, rituais alimentares incomuns e consumo intenso de conteúdos sobre dietas e aparência.
Alterações de humor, ansiedade, baixa autoestima e isolamento social também podem indicar que o jovem está enfrentando dificuldades que precisam de atenção profissional.
Diante da circulação desse tipo de conteúdo, especialistas defendem que o fenômeno não seja tratado como uma simples moda ou desafio. A orientação de profissionais de saúde e o acompanhamento familiar podem ajudar a identificar precocemente comportamentos associados a uma relação prejudicial com a alimentação e com o próprio corpo.