Inhame tem efeitos anticâncer no organismo, diz estudo brasileiro; entenda

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Uma proteína encontrada no taro (Colocasia esculenta), conhecido popularmente como inhame, demonstrou potencial antitumoral em estudos realizados com culturas de células de câncer de mama e glioblastoma. Os pesquisadores desenvolveram uma nanoformulação que encapsula a substância em nanolipossomas, estruturas que podem ajudar a transportar compostos e controlar sua liberação.

A pesquisa investiga a tarina, uma proteína do grupo das lectinas vegetais. Há mais de 15 anos, equipes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Estadual do Maranhão estudam as propriedades dessa substância, incluindo seus possíveis efeitos antitumorais e imunomoduladores.

Os resultados indicam que a nanoformulação interferiu na multiplicação e na capacidade de migração das células cancerosas, além de ativar mecanismos associados à morte celular. No entanto, os experimentos foram realizados em laboratório, e ainda são necessárias outras etapas de pesquisa para avaliar a segurança e a eficácia do tratamento.

Proteína vegetal apresentou efeitos contra células tumorais

As lectinas vegetais são proteínas conhecidas por suas diferentes atividades biológicas. Em 2008, os cientistas conseguiram isolar a tarina com pureza superior a 90% e determinar sua estrutura tridimensional, ampliando as possibilidades de investigação de suas propriedades.

Para desenvolver uma estratégia de administração da substância, a equipe encapsulou a proteína em nanolipossomas. Em estudos anteriores, a formulação inibiu a proliferação de células da linhagem MDA-MB-231, associada ao câncer de mama, e da linhagem U-87 MG, utilizada em pesquisas sobre glioblastoma.

Os pesquisadores também observaram que a nanoformulação não provocou efeitos tóxicos nas culturas de células humanas saudáveis avaliadas. O resultado sugere potencial de seletividade, mas não é suficiente para comprovar a segurança do composto em organismos vivos.

Em experimentos posteriores, a equipe investigou os mecanismos envolvidos na resposta das células ao tratamento. Os resultados mostraram que a tarina encapsulada interrompeu o ciclo celular, dificultando a multiplicação das células tumorais.

A formulação também ativou mecanismos de morte celular, como a apoptose e a autofagia, e reduziu a capacidade de migração das células. Esse último efeito indica um possível potencial para interferir em processos relacionados à disseminação tumoral, embora ainda não demonstre eficácia contra metástases em organismos vivos.

Os efeitos variaram conforme o tempo de exposição ao tratamento, avaliado em períodos de 24 e 48 horas. Segundo os pesquisadores, os resultados são compatíveis com a possibilidade de liberação gradual da tarina pelos nanolipossomas.

Um dos principais desafios no tratamento do glioblastoma é a barreira hematoencefálica, estrutura que controla a passagem de substâncias do sangue para o cérebro e dificulta a chegada de determinados medicamentos ao tecido cerebral.

Para investigar essa questão, os pesquisadores desenvolveram um modelo in vitro da barreira utilizando células humanas de vasos sanguíneos cerebrais. Após 180 minutos, cerca de 20% da formulação inicial havia atravessado o modelo.

O resultado indica que parte da nanoformulação conseguiu transpor essa barreira experimental. Ainda será necessário investigar como esse comportamento se traduz em condições mais próximas das encontradas no organismo e se a quantidade que chega ao tumor é suficiente para produzir um efeito terapêutico.

Análise de proteínas revelou respostas ao tratamento

Em outro experimento, a equipe analisou o proteoma (conjunto de proteínas expressas pelas células em determinadas condições) de células de câncer de mama após 24 e 48 horas de exposição à tarina nanoencapsulada.

Mais de 2 mil proteínas foram detectadas. Inicialmente, as células apresentaram respostas de adaptação ao estresse, com aumento de proteínas relacionadas à defesa antioxidante, à migração e ao reparo celular.

Após 48 horas, porém, os pesquisadores identificaram alterações associadas à ativação da apoptose e da autofagia, além de sinais de inibição de processos relacionados à migração, à angiogênese e à proliferação celular.

Os resultados ainda estão na fase pré-clínica e foram obtidos em culturas celulares. Antes de uma eventual aplicação em pacientes, a formulação precisa passar por avaliações adicionais de eficácia e segurança, incluindo modelos experimentais mais complexos e estudos em animais, conforme as etapas de desenvolvimento necessárias.

Entre os próximos objetivos da equipe estão os testes em esferoides, modelos tridimensionais que reproduzem algumas características dos tumores, e a investigação dos efeitos imunomoduladores da tarina nanoencapsulada.

Estudos anteriores do grupo também indicaram que a tarina em sua forma livre ajudou camundongos imunossuprimidos pela ciclofosfamida a se recuperar de alterações como anemia e leucopenia. Os pesquisadores pretendem investigar se a versão nanoencapsulada também pode apresentar efeitos semelhantes.

A hipótese é que a substância possa, futuramente, contribuir tanto para o combate às células tumorais quanto para a redução de determinados efeitos adversos do tratamento. Essa possibilidade, porém, ainda precisa ser demonstrada em novos experimentos.

Os pesquisadores ressaltam que o consumo de inhame não trata o câncer. Os resultados dizem respeito ao estudo de uma proteína isolada e administrada em uma formulação desenvolvida em laboratório, e não ao alimento consumido na dieta.

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