Um relatório da Associação Americana do Coração (AHA) conclui que beber até mesmo um copo de bebida alcoólica pode ser bastante prejudicial à saúde.

O excesso de bebida alcoólica já está associado a um maior risco de infarto, AVC, fibrilação atrial e outras doenças cardíacas. A AHA indicou que beber uma ou duas doses por dia pode ter uma relação neutra ou até levemente benéfica em alguns casos, mas estudos que apoiam essa possibilidade apresentam limitações importantes: são observacionais, não controlados e, portanto, suscetíveis a diversos pontos de vista.
No entanto, quando se analisa o consumo médio de três ou mais doses diárias, a relação com maior risco cardiovascular é clara. O relatório alerta que o consumo de álcool é amplamente disseminado na população geral. Nos Estados Unidos, 85% dos adultos declararam já ter consumido álcool alguma vez na vida, e mais de 60 milhões de pessoas com mais de 12 anos relataram ter tido pelo menos um episódio recente de consumo excessivo.
Muitos, aliás, começam com o hábito na adolescência e mantém até a idade adulta avançada. Ao menos 44% dos adultos com mais de 65 anos continuam consumindo álcool. Durante a pandemia de Covid-19, foi registrado um aumento sustentado na frequência e quantidade de consumo, inclusive com casos delicados.
O relatório estabelece uma definição padronizada de dose, a fim de maior entendimento: nos Estados Unidos, uma unidade equivale a 14 gramas de álcool, o que corresponde a 350 ml de cerveja (5%), 150 ml de vinho (12%) ou 45 ml de destilado (40%). Essas informações, entretanto, não são uniformes no mundo todo, o que dificulta a comparação de dados entre países e populações.
O documento destaca que não há consenso internacional sobre as recomendações para o consumo de álcool. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) sustenta que não existe um nível seguro, as diretrizes alimentares dos Estados Unidos reconhecem a incerteza quanto aos efeitos do consumo leve e não promovem o álcool como parte de uma dieta saudável.
Risco de infarto, AVC e aumento na pressão arterial
Um dos principais objetivos do relatório era entender melhor a relação entre álcool e pressão arterial. Em geral, beber uma ou duas doses por dia não parece causar um impacto imediato significativo. Mas a partir da terceira unidade, a resposta do organismo muda: há uma queda inicial da pressão, seguida por um aumento sustentado que pode durar até 24 horas.
Pessoas que consumiam seis doses diárias e reduziram essa quantidade pela metade conseguiram reduções notáveis nos valores da pressão sistólica e diastólica. Ademais, uma metanálise com dados de mais de 600 mil pessoas mostrou que até mesmo uma dose diária pode elevar progressivamente a pressão arterial, sem que tenha identificado um limite seguro.
A relação entre o consumo de álcool e o infarto do miocárdio, por sua vez, apresenta nuances. Segundo o relatório, algumas pesquisas sugerem uma leve redução no risco quando o consumo está dentro dos limites considerados “moderados” (uma dose diária para mulheres, duas para homens). Mas esse efeito desaparece se houver episódios de consumo excessivo.
Além disso, quando se usam metodologias mais rigorosas, como a randomização mendeliana (que utiliza dados genéticos para evitar erros típicos dos estudos observacionais) não são encontrados benefícios cardiovasculares claros. Realmente, os dados e os estudos de casos e controles agrupados indicam, na melhor das hipóteses, uma redução muito fraca do risco, insuficiente para justificar uma recomendação clínica.
Os resultados são semelhantes em relação ao acidente vascular cerebral (AVC). O consumo de até duas doses por dia poderia estar associado a uma leve redução no risco de AVC isquêmico. No entanto, essa possível proteção desaparece — e até se inverte — quando se ultrapassam as três doses diárias.
O risco aumenta tanto para AVCs isquêmicos quanto hemorrágicos. A evidência genética mais recente é contundente: quanto maior o consumo médio de álcool, maior o risco de sofrer qualquer tipo de AVC, tanto em homens quanto em mulheres.
Um dos vínculos mais sólidos identificados na literatura científica, e reafirmado por este relatório, é o existente entre o álcool e a fibrilação atrial, uma arritmia cardíaca comum que pode aumentar o risco de AVC e de insuficiência cardíaca. Ao contrário de outras doenças, neste caso o risco aumenta mesmo com consumos baixos.
Portanto, não há um limite mínimo que possa ser considerado seguro. Pelo contrário, a abstinência está associada a uma menor carga de fibrilação atrial, e estudos controlados mostraram que pessoas que pararam de beber tiveram uma redução significativa na recorrência do problema.
Já no caso da miocardiopatia alcoólica, o relatório mostra que o consumo crônico e elevado (entre sete e quinze doses por dia durante mais de cinco anos) pode causar danos estruturais no coração. Também foram observados sinais de disfunção cardíaca, como alterações na função diastólica, em pessoas que consumiam apenas quatro doses semanais, o que indica que certos indivíduos podem ser especialmente suscetíveis, mesmo com doses baixas.
O risco de insuficiência cardíaca aumenta quando se ultrapassam as 21 doses semanais. Abaixo desse limite, não há evidências sólidas de efeito protetor. O relatório ressalta que, além da quantidade consumida, há fatores individuais que influenciam a resposta do organismo, como sexo, idade, genética e estado geral de saúde.
De acordo com as orientações da AHA, as mulheres tendem a alcançar concentrações mais altas de álcool no sangue do que os homens ao consumir a mesma quantidade, devido a diferenças no metabolismo. A maior exposição as torna mais vulneráveis a certos efeitos adversos.
Também foram identificadas diferenças genéticas conforme a origem étnica: algumas variantes que afetam o metabolismo do álcool são mais frequentes em pessoas de ascendência asiática ou africana, o que pode alterar o risco nesses grupos populacionais.
Os perigos são agravados em adultos mais velhos, devido à interação frequente de álcool e medicamentos que costumam usar diariamente. Em adolescentes e adultos jovens, o consumo episódio intenso já está associado a alterações como aumento da pressão arterial, disfunção endotelial, arritmias e até risco elevado de AVC.
Outro grupo analisado no relatório foi o de pessoas com diabetes. Embora alguns ensaios clínicos tenham detectado melhorias modestas no colesterol HDL após o consumo de vinho tinto, também foram observados aumentos na pressão sistólica. Outros estudos não encontraram efeitos significativos sobre a glicemia nem sobre a progressão de placas ateroscleróticas. Portanto, as evidências não permitem estabelecer um benefício claro do álcool nesse grupo de pacientes.
O impacto do álcool sobe o sistema cardiovascular não se limita a um único mecanismo. A ação atravessa múltiplas vias, segundo a AHA: afeta os níveis de lipídios no sangue, altera a coagulação, influencia processos inflamatórios, modifica o metabolismo da glicose e pode alterar o peso corporal.
Em alguns casos, por exemplo, observou-se que o álcool aumenta a adiponectina e reduz o fibrinogênio, dois biomarcadores relevantes na saúde cardiovascular. No entanto, também pode induzir hipertensão, dificultar a adesão a tratamentos e gerar complicações metabólicas.
Quanto à obesidade, os resultados são inconsistentes. Alguns estudos longitudinais não detectaram uma relação direta entre o consumo de álcool e o ganho de peso. Outros estudos, entretanto, identificaram maior probabilidade de sobrepeso ou obesidade entre aqueles que consomem grandes quantidades com regularidade.
A AHA desaconselha que profissionais de saúde recomendem o álcool como ferramenta preventiva. Não existem razões clínicas para sugerir seu consumo em pacientes saudáveis nem naqueles com risco cardiovascular. A organização destaca a importância e fortalecer outras estratégias de vida saudável com efeitos comprovados, como a prática regular de atividades físicas, alimentação equilibrada, controle do peso, acompanhamento médico e evitar nicotina.
O relatório termina com um alerta claro: é urgente promover mais estudos clínicos controlados que permitam avaliar com precisão o impacto do álcool em diferentes subgrupos da população e ajudar a compreender os mecanismos envolvidos em seus efeitos.








