Cirrose Hepática – Sintomas, Causas e Tratamento

Especialista:
atualizado em 16/01/2020

A cirrose hepática é uma doença que afeta o fígado e o deixa extremamente debilitado. Trata-se de uma doença que requer tratamento imediato para evitar o surgimento de mais danos no fígado, que podem prejudicar toda sua função e levar até à falência do órgão.

Os sintomas e as causas da doença, além de como funciona o tratamento, serão discutidos nesse artigo para que todas suas dúvidas sobre o assunto sejam sanadas.

Cirrose hepática

A cirrose é um problema de saúde grave em que danos no fígado a longo prazo destroem as células saudáveis do órgão, gerando um tecido cicatricial no lugar delas. O crescimento dessa cicatriz e a escassez de células hepáticas saudáveis pode bloquear o fluxo sanguíneo até o órgão.

Esse bloqueio no fluxo de sangue reduz a capacidade do fígado de processar nutrientes, hormônios, medicamentos e de filtrar toxinas presentes no sangue até interromper toda a função hepática.

Essa doença não surge de uma hora para a outra. A cirrose hepática é uma doença progressiva que vai se desenvolver ao longo de vários anos de danos causados ao fígado.

A cirrose alcoólica, por exemplo, é decorrente de um longo período de tempo de abuso de bebidas alcoólicas, que vão prejudicando o fígado e sua função.

O tecido cicatricial fibroso que se forma é uma tentativa do fígado de se curar do dano sozinho. No entanto, como o órgão continua sendo prejudicado o tempo todo, seja pelo uso de álcool em excesso ou outros tipos de danos, as cicatrizes vão apenas se acumulando e o órgão não consegue apresentar nenhum tipo de melhora.

Importância do fígado

O fígado é um dos maiores órgãos do corpo humano. Ele executa funções muito importantes para o organismo. Alguns exemplos são:

  • Armazenar excesso de nutrientes e processar parte deles para a corrente sanguínea;
  • Produzir proteínas que ajudam na coagulação, o que melhora o transporte de oxigênio pelo corpo e fortalece o sistema imunológico;
  • Quebrar a gordura saturada para produção de colesterol;
  • Ajudar o corpo a armazenar glicose na forma de glicogênio;
  • Sintetizar bile necessário para digerir os alimentos.

Danos ao fígado causados pela cirrose podem influenciar negativamente todas essas funções e impactar o funcionamento de todo o organismo.

Sintomas

Nos estágios iniciais da doença, os sintomas não costumam ser observados. Conforme o tempo vai passando e o tecido cicatricial se acumula, o funcionamento normal do fígado é prejudicado e a partir daí podem surgir os seguintes sintomas:

  • Retenção de líquidos no abdômen;
  • Náusea;
  • Fadiga;
  • Insônia;
  • Comichão na pele;
  • Perda de apetite;
  • Dor ou sensibilidade na região onde o fígado está localizado;
  • Fraqueza;
  • Perda de peso.

Com a progressão da doença, os sintomas mencionados acima podem ficar mais intensos e novos sinais podem aparecer, tais como:

  • Batimento cardíaco acelerado;
  • Sangramento na gengiva;
  • Confusão mental;
  • Perda de massa especialmente na parte superior dos braços;
  • Alterações de humor e de comportamento;
  • Queda de cabelo;
  • Cãibras musculares;
  • Problemas de memória;
  • Perda de desejo sexual;
  • Edemas (ou acúmulo de fluido) nos tornozelos, nos pés e nas pernas;
  • Febre frequente;
  • Aumento da suscetibilidade a hematomas;
  • Hemorragias nasais;
  • Dificuldades para metabolizar medicamentos e o álcool;
  • Falta de ar;
  • Dor no ombro direito;
  • Vômito com sangue;
  • Dificuldade para se movimentar;
  • Escurecimento da urina;
  • Mudança na consistência e na cor das fezes que podem ficar mais escuras ou mais claras do que o normal;
  • Nódulos causados devido ao acúmulo de tecido cicatricial fibroso.

Complicações da doença

Algumas complicações de saúde muito sérias podem surgir conforme o fígado vai perdendo a capacidade de manter suas funções. Exemplos incluem:

  • Hipertensão portal: hipertensão nas veias que suprem o fígado;
  • Esplenomegalia: condição que causa inchaço e aumento do tamanho do baço além de resultar em uma redução na contagem de glóbulos brancos e de plaquetas no sangue;
  • Sangramento: sangramento que pode ser causado por coagulação inadequada ou por veias que estouram devido à hipertensão portal;
  • Inchaço nas pernas e no abdômen: tal inchaço pode resultar em condição como os edemas nas pernas e a ascite no abdômen geralmente causados pela incapacidade do fígado de produzir a proteína albumina;
  • Infecções: o corpo tem mais dificuldade em combater infecções e fica mais suscetível a doenças desse tipo;
  • Icterícia: o fígado deixa de remover a bilirrubina, um resíduo do sangue, que deixa a pele e os olhos amarelos além de escurecer a urina;
  • Doença óssea: a resistência óssea pode ser perdida em pacientes com cirrose, o que aumenta o risco de fraturas e lesões;
  • Desnutrição: a dificuldade em processar nutrientes pelo fígado pode levar à desnutrição;
  • Aumento do risco de câncer de fígado: pessoas com cirrose têm um risco muito maior de desenvolver câncer no órgão.
  • Encefalopatia hepática: o acúmulo de toxinas no sangue que não pode ser removido pelo fígado pode se acumular no tecido cerebral e causar problemas como confusão mental, danos as funções cognitivas e dificuldade de concentração.

Causas

As causas mais comuns de cirrose são infecções virais crônicas como as hepatites, a esteatose hepática relacionada à obesidade, a diabetes e o abuso de álcool.

Outros problemas de saúde que também podem danificar o fígado e causar cirrose hepática são:

  • Fibrose cística;
  • Doenças autoimunes do fígado como a hepatite autoimune, a colangite esclerosante, a colangite biliar primária e outras síndromes;
  • Doenças que prejudicam a função normal do fígado como a doença de Wilson e a hemocromatose;
  • Bloqueio do ducto biliar;
  • Deficiência da enzima alfa-1 antitripsina;
  • Crises de insuficiência cardíaca;
  • Doenças que causam dificuldade de armazenar e processar o glicogênio.

Apesar de ser menos provável, reações a certos medicamentos prescritos e exposição a longo prazo a toxinas ambientes ou infecções por parasitas podem ser a causa de cirrose hepática.

Embora existam causas metabólicas e genéticas, os fatores que mais influenciam no desenvolvimento da cirrose incluem a ingestão excessiva de álcool, a obesidade que aumenta o risco de esteatose hepática não alcoólica ou uma infecção viral.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico de cirrose hepática é feito através da análise dos sintomas e de exames adicionais quando a doença já está avançada ou pode ser detectada precocemente por meio de exames de sangue de rotina.

O médico deve procurar por alterações em substâncias como enzimas hepáticas, bilirrubina e creatinina. Também devem ser solicitados exames para verificar se o paciente apresenta o vírus da hepatite.

Alguns testes de imagem podem ser úteis para auxiliar no diagnóstico como ressonância magnética, ultrassonografia e tomografia computadorizada.

Em casos de suspeita de danos graves, uma endoscopia pode ser realizada para verificar a extensão dos danos ou uma biópsia de tecido hepático pode ser requerida pelo profissional para que ele tenha uma ideia completa de qual a gravidade da doença.

Tratamento

Quanto mais cedo a cirrose hepática for diagnosticada, melhores as chances de evitar complicações, de retardar os danos ao fígado e de aliviar os sintomas.

O tratamento vai depender também da causa e da gravidade da doença, pois não existe uma cura para as cicatrizes que já foram formadas no fígado. O que o médico é capaz de fazer é indicar medicamentos para amenizar os sintomas e evitar que mais danos sejam causados ao órgão.

– Tratamento para cirrose alcoólica

Se a cirrose for causada pelo consumo de álcool em excesso, o paciente deve, antes de tudo, parar de beber. Em seguida, deve ser iniciado um tratamento específico para tratar a dependência química ao álcool e alguns medicamentos podem ser prescritos para amenizar os sintomas e evitar a progressão da cirrose.

– Tratamento para doença hepática gordurosa não alcoólica ou esteatose não alcoólica

A perda de peso é essencial para pessoas que sofrem de esteatose hepática não alcoólica, já que a redução no peso corporal pode melhorar a saúde, ajudar a eliminar gordura do corpo e a controlar melhor os níveis de açúcar no sangue – que se elevados podem levar ao acúmulo de ainda mais gordura.

Medicamentos utilizados

Se a causa da cirrose for uma hepatite do tipo B ou C, um medicamento antiviral específico deve ser prescrito ao paciente.

Outros tipos de remédios podem ser receitados quando a cirrose hepática têm origem em outras causas para tentar atrasar a progressão da doença, aliviando os sintomas e evitando complicações. Tais medicamentos devem ser criteriosamente escolhidos por um médico.

Alguns exemplos de medicamentos que podem ser usados para retardar a doença incluem: Neomicina, Lactulose e Rifacimina para auxiliar na eliminação de toxinas do organismo, Epocler para evitar o acúmulo de gordura e ajudar na remoção de toxinas e diuréticos como o Diurix ou o Aldactone para tratar a retenção de fluidos.

Amenizando as complicações da cirrose hepática

Alguns tratamentos complementares podem ser indicados para aliviar alguns sintomas e tratar as complicações de saúde. Certos cuidados também devem ser tomados para evitar que a situação piore ainda mais.

  • Excesso de fluido no organismo: ingerir pouco sódio e utilizar medicamentos diuréticos pode ajudar a eliminar o fluido acumulado no corpo. Em alguns casos, pode ser preciso realizar um procedimento para drenar o fluido ou uma cirurgia para aliviar a pressão abdominal.
  • Infecções: antibióticos ou outros medicamentos para tratar infecções podem ser prescritos. Além disso, o médico deve solicitar que um paciente com cirrose tome vacinas para prevenir o contágio de doenças como a hepatite, a gripe e a pneumonia.
  • Risco de câncer de fígado: exames de sangue periódicos e ultrassonografias devem ser feitas com frequência para verificar como anda a saúde do órgão e para buscar sinais de câncer de fígado, que tem melhores taxas de cura se descoberto no início da doença.
  • Encefalopatia hepática: medicamentos podem ser prescritos para reduzir o acúmulo de toxinas no sangue.
  • Hipertensão portal: alguns remédios para regular a pressão arterial sanguínea podem ajudar a controlar o aumento de pressão que ocorre nas veias que suprem o fígado, chamada de hipertensão portal. Isso ajuda a evitar sangramentos graves. Nesse caso, uma endoscopia deve ser feita regularmente para que o médico procure por veias dilatadas na região do esôfago ou do estômago que corram risco de sangrar. Fica sempre a critério do médico indicar o uso de um regulador de pressão ou não.

Quando o transplante é uma opção?

Em casos muito avançados de cirrose quando a função hepática deixa de funcionar completamente, o transplante de fígado passa a ser a única opção restante.

No entanto, não é fácil encontrar um doador e o procedimento não é simples. O candidato a receber o órgão precisa realizar uma ampla gama de exames para atestar se é saudável o suficiente para ter uma cirurgia de sucesso e ter a sorte de encontrar um doador que seja compatível.

Cuidados com a saúde para pacientes com cirrose hepática

Pacientes que estão na luta para evitar danos adicionais ao fígado devem estar atentos a todas as possibilidades para preservar a saúde do órgão. Alguns cuidados que podem ser tomados são:

1. Evitar ingerir muito sódio

O excesso de sódio na dieta pode piorar a retenção de líquidos causada pela cirrose. Opte por ervas naturais e outros tipos de temperos nas suas refeições no lugar do sal, além de evitar o consumo de alimentos industrializados com alto teor de sódio.

2. Não ingerir álcool

O álcool deve passar longe de pacientes com cirrose, já que a substância só tende a piorar ainda mais as cicatrizes no órgão.

3. Evitar infecções

Nem sempre é possível, mas tome medidas de precaução quando puder para evitar contrair infecções, pois a cirrose dificulta o combate do corpo a infecções.

Lave as mãos com frequência e evite contato direto com pessoas doentes. Não se esqueça de manter as vacinas em dia para não adquirir doenças como a gripe, a pneumonia e as hepatites A e B.

4. Ter uma dieta saudável

Pacientes com cirrose podem sofrer de desnutrição porque o fígado não consegue mais processar os alimentos e fornecer nutrientes para o corpo como antes. Assim, é muito importante focar em alimentos extremamente saudáveis e ter uma dieta baseada em frutas, vegetais, leguminosas e boas fontes de proteína como aves e peixes.

5. Não se automedicar

O fígado é responsável por metabolizar os fármacos que tomamos quando estamos doentes. No entanto, quando um paciente tem cirrose, esse processamento é mais difícil. Assim, evite tomar medicamentos por conta própria, incluindo aqueles que são vendidos sem necessidade de prescrição como analgésicos.

O paracetamol, por exemplo, pode parecer inofensivo, mas é um dos analgésicos que mais prejudicam o fígado.

A cirrose tem cura?

Infelizmente, a doença não tem cura e só é possível retardar a progressão da condição ou optar por um transplante de órgão.

Várias pesquisas estão em andamento para descobrir novas formas de tratamento para a cirrose, mas enquanto essa descoberta não vem, cuide da sua saúde e mesmo que você já tenha cirrose, adote hábitos melhores e lute para preservar aquilo que resta de bom no seu fígado para mantê-lo em funcionamento.

Fontes e Referências Adicionais:

Você já foi diagnosticado com cirrose hepática ou conhece alguém que já teve? Quais providências foram tomadas? Comente abaixo!

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Sobre Dr. Lucio Pacheco

Dr. Lucio Pacheco é Cirurgião do aparelho digestivo, Cirurgião geral - CRM 597798 RJ/ CBCD. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1994. Em 1996 fez um curso de aperfeiçoamento no Hospital Paul Brousse, da Universidade de Paris-Sud, um dos mais especializados na área de transplantes na Europa. Concluiu o mestrado em Medicina (Cirurgia Geral) em 2000 e o Doutorado em Medicina (Clinica Médica) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2010. Dr Lucio Pacheco é um profundo estudioso na área de doença hepática e escreveu dezenas de livros e artigos sobre transplante de fígado. Atualmente é médico - cirurgião, chefe da equipe de transplante hepático do Hospital Copa Star, Hospital Quinta D´Or e do Hospital Copa D´Or. É diretor médico do Instituto de Transplantes. Tem vasta experiência na área de Medicina, com ênfase em Transplante hepático, atuando principalmente nos seguintes temas: cirurgia geral, oncologia cirúrgica, hepatologia,e transplante de fígado. Dr. Lucio é uma referência profissional em sua área e autor de artigos científicos e diversos. Para mais informações, entre em contato com ele.

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