Por mais eu o café possa reduzir o tempo de descanso para algumas pessoas, a bebida estimulante também é capaz de melhorar a qualidade do sono. É isso que diz uma pesquisa publicada no Journal of Psychopharmacology.

Para os autores, a descoberta sugere uma adaptação do cérebro humano aos efeitos da ingestão diária de cafeína. Ela é uma substância amplamente consumida em todo o mundo, presente em cafés, chás, chocolates e em bebidas energéticas. Há anos, pesquisas buscam entender os efeitos da ingestão por longos períodos, principalmente em relação ao impacto no sono.
Benjamin Stucky, pesquisador da Universidade de Zurique, na Suíça, e autor principal do novo estudo, pondera que a maioria das pesquisas é realizada em ambientes controlados e exigem que os participantes tenham um período de abstinência antes do teste, o que pode interferir nos resultados.
“A maioria das pesquisas sobre cafeína e sono analisa o que ocorre quando as pessoas consomem a substância após um período de abstinência, e constata que isso pode perturbar o sono. Mas não é assim que a maioria das pessoas consome café. A maioria o consome diariamente durante anos. O corpo e o cérebro podem se adaptar com o tempo”, destacou Stucky em entrevista ao portal PsyPost.
Para resolver a questão, foram analisados dois bancos de dados: o UK Biobank, do Reino Unido, que concedeu informações genéticas e relatos dos próprios participantes sobre os hábitos de ingestão de cafeína; e o HypnoLaus, da Suíça, responsável por fornecer dados de 1,7 mil indivíduos sobre sono, coletados por meio de polissonografia, método capaz de monitorar várias funções corporais para detectar alterações durante o descanso.
Ao unir os dois bancos de dados, foi possível ir além das respostas dos dois participantes em questionários, analisando também a atividade cerebral deles durante o sono.
O que foi descoberto sobre a reação do café no sono
Os participantes analisados foram divididos em duas categorias principais: os com alto consumo habitual (quatro ou mais bebidas com cafeína diárias) e os com ingestão moderada (três ou menos bebidas).
Ademais, foram usadas duas técnicas estatísticas para aumentar ainda mais a confiança nos resultados: uma investigou variações genéticas ligadas ao metabolismo da cafeína e a outra conseguiu reunir participantes com atributos parecidos, como idade, índice de massa corporal (IMC) e nível socioeconômico.
A conclusão foi que o alto consumo rotineiro de cafeína reduzia o tempo total de sono. Os dados observacionais e de pareamento mostram, por exemplo, uma redução de cerca de 11 a 13 minutos por noite.
Por outro lado, registros cerebrais demonstraram uma qualidade maior do descanso entre essas pessoas, mesmo com menos tempo de sono. Indivíduos com alta ingestão de café diária tinham mais atividade cerebral na faixa de frequência delta, responsável por ondas cerebrais mais lentas e ligadas ao estágio de quando estamos dormindo profundamente (o estágio REM, considerado a fase mais restauradora para o cérebro e o corpo).
Os autores do estudo ponderam que a pesquisa ainda não crava se o consumo regular de cafeína faz bem ou não para a saúde, porém, ajuda a encontrar um caminho. “Os resultados do nosso estudo não corroboram a ideia de que o consumo regular de cafeína teria consequências muito prejudiciais para a qualidade do nosso sono”, concluiu Stucky.








