Café Descafeinado Faz Mal?

Especialista:
atualizado em 23/09/2020

A divergência acerca dos benefícios e malefícios causados pelo consumo de café é notória entre médicos e especialistas há anos. E quando falamos do café descafeinado, o desacordo não é diferente.

Alguns estudos mostram que o café descafeinado faz mal e pode provocar aborto no início da gravidez e promover ataques cardíacos, assim como o café normal. Outros estudos mostram que, por manter os princípios ativos do café, mas sem a cafeína, ele pode melhorar o desempenho mental e aliviar dores de cabeça, além de evitar o aumento da pressão arterial, problemas associados à ingestão do café regular.

A maioria dos médicos concorda, no entanto, que nem sempre café descafeinado faz mal em si, mas sim a forma como ele é processado e a quantidade ingerida pelas pessoas.

É comum encontrar estudos divergentes sobre o café descafeinado

Embora o café descafeinado tenha sido menos estudado do que o café normal, ele também já foi foco de vários estudos de saúde. Por exemplo, um estudo feito com mulheres em Iowa descobriu que aquelas que bebiam quatro ou mais xícaras por dia de café descafeinado tinham um risco mais elevado de desenvolver artrite reumatoide, mas outro estudo semelhante, feito por Harvard, não encontrou tal ligação.

O café descafeinado contém um pouco de cafeína e os mesmos princípios ativos do café normal, e pode, no entanto, provocar efeitos semelhantes. Em pessoas susceptíveis, por exemplo, ele pode causar azia ou irritar úlceras de estômago. E por incrível que pareça, mesmo sem a cafeína, ele também pode estimular o sistema nervoso e aumentar momentaneamente a pressão arterial naqueles que não estão acostumados ao café, de acordo com pesquisadores suíços. Eles afirmam, no entanto, que nem o café descafeinado nem o normal causam hipertensão.

Quanta cafeína o café descafeinado contém?

Para se qualificar como descafeinado, o café passa por um processo que deve remover a maioria da cafeína dos grãos (pelo menos 97%). O café regular contém de 60 a 150 miligramas de cafeína por xícara, enquanto o descafeinado contém até cinco miligramas da substância, o que é significativamente menor, mas não insignificante, portanto ele não é efetivo para pessoas que querem evitar completamente o consumo de cafeína.

Todavia, a maior preocupação que sustenta que o café descafeinado faz mal está na segurança dos solventes utilizados no processo. Em alguns países acredita-se que certos solventes, usados para dissolver a cafeína, podem causar câncer e ter um efeito inflamatório nas articulações no nosso corpo.

O processo para descafeinar o café

Para serem descafeinado os grãos de café são colocados de molho na água para suavizarem e, em seguida, é usada uma substância para extrair a cafeína. O principal objetivo do processo é a extração da cafeína com o mínimo de perda de sabor.

As substâncias utilizadas para remover a cafeína podem ou não entrar em contato direto com os grãos e assim os processos são chamados de descafeinação direta ou indireta. E são exatamente estes métodos que geram tanta polêmica sobre a bebida e que determinariam se o café descafeinado faz mal ou não à saúde.

O método químico

Os defensores deste processo de descafeinação afirmam que nele os grãos de café são embebidos em água para amolecer e dissolver a cafeína. A água contendo a cafeína (e o sabor dos grãos) é tratada com um solvente para removê-la e depois o líquido é devolvido aos grãos para que estes sejam secos. Os sabores na água são então reabsorvidos pelos grãos.

Eles afirmam que os grãos nunca tocam o solvente e que o solvente mais utilizado hoje é o acetato de etilo, uma substância natural encontrada em muitas frutas e não prejudicial à saúde.

Já os pesquisadores contrários a este processo afirmam que outro solvente, o cloreto de metileno, reconhecido por ser cancerígeno, também é utilizado como solvente e que ele é adicionado diretamente na água em que os grãos são colocados de molho. Este solvente químico é acusado de causar reações graves aos olhos, pele, sistema nervoso central e sistema respiratório.

O método do dióxido de carbono

Este método expõe os grãos de café ao dióxido de carbono sob pressão. Nesta forma ele se parece com um líquido, em termos da sua densidade, mas tem a viscosidade de um gás.

Ele dissolve a cafeína de forma muito eficaz e evapora quando os grãos voltam à temperatura ambiente. Embora seja tecnicamente outro método químico, não há rumores de que cause riscos para a saúde. Ao seu rotulado, no entanto, não é exigido especificar o método utilizado para descafeinar cada marca de café.

O método do extrato natural

Este é o tipo de descafeinação mais natural, porém mais caro, porque é um processo muito mais complexo. Ele utiliza um extrato de café virtualmente livre de cafeína que, devido às leis de solubilidade, atrai a cafeína que migra dos grãos de café verde para este extrato.

Devido à forma como os grãos de café reagem com os óleos essenciais e os outros componentes do extrato, a cafeína é atraída deixando para trás os componentes desejáveis do café, tal como o sabor.

Este método é livre de produtos químicos e cafés descafeinados desta forma são mais saborosos do que os demais, mantém um pouco mais de cafeína residual.

O método da água

Neste método, os grãos são colocados na água para amaciar e remover a cafeína, e em seguida, o líquido é passado através de filtros de carvão ou carvão ativado para separar a cafeína. O fluido contendo sabor é então retornado para os grãos a serem secos. Se o café for rotulado como naturalmente descafeinado ou processado pelo método suíço, ele deve ter passado por este processo e não contém substâncias químicas nocivas.

Alguns especialistas que afirmam que o café descafeinado faz mal

As bebidas descafeinadas surgiram depois que a cafeína passou a ser acusada de não ser saudável, mas defensores do café afirmam que o consumo de cafeína com moderação não causa problemas, a menos que a pessoa já tenha uma condição pré-existente como pressão arterial excessivamente elevada.

Para estes especialistas, é particularmente preocupante quando as pessoas passam a evitar o café por causa da cafeína, e depois passam a ingerir bebidas energéticas cujos ingredientes são todos artificiais e considerados por eles venenosos para a saúde.

O café, segundo eles, é uma opção muito mais saudável do que bebidas energéticas cheias de adoçantes artificiais sintetizados quimicamente.

Pior ainda, segundo alguns estudos, seria migrar do uso moderado do café regular para o descafeinado. Este, além de ainda conter certa quantidade de cafeína, ainda pode estar contaminado com produtos químicos usados no processo de descafeinação, dos quais não há legislação efetiva a respeito e se quer são mencionados nos rótulos dos produtos.

Café descafeinado pode elevar os níveis de colesterol?

Todos os tipos de bebidas de café, incluindo o café descafeinado, contêm duas substâncias naturais: caveol e cafestol. Segundo alguns estudos, elas são as responsáveis por elevar o colesterol quando ingeridas.

Quando se prepara o café regular usando filtro de papel, a maioria destas substâncias é filtrada e não chega até a xícara.

No entanto, segundo relato do Guia de Saúde da Família de Harvard, o café descafeinado faz mal mesmo quando preparado utilizando um filtro de papel, pois pode elevar os níveis de colesterol. As razões exatas por que isto ocorre ainda são em grande parte desconhecidas, mas provavelmente estão relacionadas aos processos químicos pelos quais o café é descafeinado, ou aos tipos de grãos utilizados para fazer café descafeinado. No processo geralmente são usados grãos mais robustos, que podem conter níveis muito elevados de caveol e cafestol em comparação aos grãos do tipo arábico, usados para fazer variedades de café regulares.

Descafeinado pode causar problemas gastrointestinais?

Um relatório publicado no Medical News Today explica que, quando usado em demasia, o café descafeinado faz mal porque pode causar azia, úlceras e refluxo gastresofágico, um precursor de câncer de esôfago. Embora uma ou duas xícaras de café descafeinado por dia não seja susceptível de causar quaisquer problemas gastrointestinais graves, o consumo regular de bebidas de café com doses superiores a 450 ml pode levar a sérias complicações.

Há os especialistas que defendem a ingestão do café descafeinado

Segundo alguns estudos, embora possa haver uma pequena perda de antioxidantes durante o processo de descafeinação, o café descafeinado ainda assim é rico em antioxidantes e contém nutrientes importantes.

Uma xícara de café descafeinado fornece mais de 2% da ingestão diária recomendada de magnésio, quase 5% de potássio e 2,5% de niacina ou vitamina B3. Especialistas afirmam que isso pode não parecer uma grande quantidade de nutrientes, mas lembram de que o consumo de três xícaras ao dia triplica estes valores.

Os antioxidantes, por sua vez, são muito eficazes na neutralização de compostos reativos chamados radicais livres, o que reduz danos oxidativos e pode ajudar a prevenir doenças cardíacas, câncer e diabetes tipo 2.

Os defensores do consumo de café descafeinado afirmam que outros elementos além da cafeína são os responsáveis pelos efeitos protetores à saúde que a bebida proporciona e que ao descafeinar os grãos, não há perda significativa dos demais nutrientes do café.

Café descafeinado pode proteger contra o envelhecimento precoce e doenças neurodegenerativas?

Tanto o café regular quanto o descafeinado parecem ter efeitos positivos sobre o declínio mental relacionado com a idade. Estudos feitos em células humanas mostram que o café descafeinado pode proteger os neurônios no cérebro, o que levaria a prevenir o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer e de Parkinson.

Um estudo sugere que estes efeitos podem ocorrer devido ao ácido clorogênico presente no café descafeinado.

Especialistas ainda dizem que beber café descafeinado provoca significativamente menos efeitos colaterais desconfortáveis como azia ou refluxo ácido, comuns ao café regular.

Tomar duas ou mais xícaras de café descafeinado por dia também tem sido associado até a um risco 48% menor de desenvolver câncer retal.

Recomendações ao optar pelo café descafeinado

Ao que tudo indica, tomar uma ou duas xícaras de café descafeinado puro por dia não irá causar quaisquer efeitos adversos para a saúde.

No entanto, pessoas com colesterol alto, ou com risco para doenças do coração, devem discutir com um médico especialista se o café descafeinado faz mal para elas, se ele é indicado e em que quantidade.

É fato que o café descafeinado contém alguns antioxidantes que podem ser benéficos para a saúde, mas, conforme recomendado pelo Medical News Today, sua ingestão não deve nunca ser usada como um substituto para os antioxidantes presentes nas frutas e legumes.

Fontes e Referências Adicionais:

Você já tinha ouvido por aí que o café descafeinado faz mal para a saúde? Costuma tomar que tipo de café, e por quê? Comente abaixo!

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Sobre Dra. Patricia Leite

Dra. Patricia é uma das nutricionistas mais conceituadas do país, sendo uma referência profissional em sua área e autora de artigos e vídeos de grande sucesso e reconhecimento. Tem pós-graduação em Nutrição pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é especialista em Nutrição Esportiva pela Universidad Miguel de Cervantes (España) e é também membro da International Society of Sports Nutrition. É ainda a nutricionista com mais inscritos no YouTube em português. Dra. Patricia Leite é a revisora geral de todo conteúdo desenvolvido pela equipe de redatores especializados do Mundo Boa Forma.

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7 comentários em “Café Descafeinado Faz Mal?”

  1. Matéria interessante sobre o café descafeinado, mas o que se verifica é que não há uma conclusão definitiva sobre o benefício ou malefício à saúde que o descafeinado pode proporcionar ao ser humano. Quanto ao processo de retirada da cafeína, parece que o método da água é o que isenta o descafeinado do risco à saúde, já que na extração não se usa nenhum produto químico prejudicial à saúde. Quanto ao uso de solvente como o cloreto de metileno para a retirada da cafeína,”em 1985, a FDA disse que a probabilidade de qualquer risco à saúde devido ao uso desse produto era tão baixo, a ponto de ser essencialmente inexistente. As regras da FDA permitem até 10 partes por milhão de metileno residual, mas a descafeinação do café, geralmente, usa soluções com uma parte por milhão.” Sou apenas um curioso no assunto, mas a literatura do café descafeinado indica que o cloreto de metileno é uma substância tóxica que é imiscível em água, ou seja não mistura com a água para formar uma solução homogênea. Foi por este motivo que fiquei preocupado porque ao usar o café descafeinado de uma determinada marca, percebi que depois de coá-lo, dá para perceber a olho nú que fica uma camada fina oleosa boiando sobre o café. Imagino que seja o cloreto de metileno. Para tirar dúvida, fiz essa experiência com café, cuja cafeína é extraída pelo método da água. Nesse caso o café coado sai puro, sem a presença da fina camada de óleo. Portanto, ainda que a FDA tenha concluído que a probabilidade de risco à saúde seja inexistente quando se usa o cloreto de metileno, dada a sua quantidade insignificante, prefiro o produto descafeinado pelo método da água. Penso que a ANVISA deveria exigir de todas as marcas que faça constar no rótulo dos cafés descafeinados, o processo utilizado para a extração da cafeína.

      • Muito bom seu comentário. Realmente a Anvisa deveria exigir dizer o método de extração. O cloreto de metileno parece ser o mais nocivo. O da água e do dióxido de carbono parece não apresentarem muito problema.

      • Oi, eu pesquisei e tem algumas marcas aqui na internet, é só vc digitar que procura café descafeinado por método swiss water, é o método da água, vou comprar pela internet, o preço é salgado, é o dobro do que vc encontra nos supermercados mas mediante a dúvida de processo de fabricação, prefiro pagar um pouco mais, e não consumo em excesso. Espero ter ajudado.

    • Por gentileza nos informe quais marcas utilizam o processo da água, eu consumo descafeinado e gostaria de ter essa informação. Obrigada