Água Fluoretada Faz Mal à Saúde?

Especialista:
atualizado em 01/04/2020

Veja se podemos dizer que água fluoretada faz mal à saúde ou se não há maiores problemas relacionados ao seu consumo.

Em alguns lugares, substâncias que contêm o mineral fluoreto são adicionadas à água – dando assim origem à chamada água fluoretada – com o objetivo de prevenir a cárie dentária.

Isso porque ainda que toda água contenha alguma quantidade de fluoreto e algumas águas subterrâneas e fontes naturais possam ser originalmente ricas no mineral, geralmente o nível encontrado da substância na água não é suficiente para prevenir a cárie nos dentes.

No início do século XX, cientistas associaram altos níveis de fluoreto naturalmente presentes em abastecimentos de água a baixos níveis de cárie dental.

Quando estudos posteriores indicaram uma taxa expressivamente mais baixa de cáries em crianças em idade escolar, outras cidades aderiram à fluoretação da água. Além disso, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos classificou esse processo como uma das grandes conquistas em termos de saúde pública do século XX.

É aí que muita gente pode se perguntar: como uma água com fluoreto pode contribuir com a prevenção da cárie? Bem, acredita-se que o fluoreto auxilie a reconstruir e fortalecer a superfície do dente, também conhecida como esmalte. Mas o que será que isso tem a ver com a cárie?

É que quando uma pessoa consome comidas açucaradas, a bactéria presente na boca produz um ácido, que corríi os minerais que estão presentes justamente na superfície do dente, o que o torna mais fraco e aumenta as chances de desenvolvimento das cáries.

Para conhecer outros assuntos acerca de sua saúde bucal, vale a pena saber qual é o melhor tratamento para mau hálito e entender se limpador de língua funciona.

Por outro lado

Não podemos dizer que a água fluoretada para prevenir a cárie dentária seja uma unanimidade. Enquanto alguns se preocupam se a água fluoretada faz mal, outros questionam a sua eficiência em relação a saúde bucal.

Por exemplo, em seu artigo publicado na revista da Escola de Saúde Pública T.H. Chan da Universidade de Harvard, a PhD em genética Nicole Davis contou que muitos especialistas questionam as bases científicas do uso da fluoretação da água para combater as cáries.

Segundo ela, a Cochrane – uma rede independente e global de pesquisadores e profissionais de saúde conhecida pela produção de revisões científicas rigorosas de políticas de saúde pública – analisou 20 estudos principais a respeito da fluoretação da água.

“Eles observaram que enquanto a fluoretação da água é efetiva para reduzir a cárie dentária entre crianças, ‘nenhum estudo destinado a determinar a efetividade da fluoretação da água para prevenir as cáries em adultos atendeu os critérios de inclusão da revisão’”, destacou Davis.

A PhD em genética também apontou que a Cochrane concluiu que as investigações científicas iniciais sobre o tema – que foram conduzidas antes de 1975 – eram cheias de falhas. “Eles se mostraram preocupados com os métodos utilizados ou com a divulgação dos resultados em 97% dos estudos”, completou Davis.

“Um problema: os estudos iniciais não levaram em consideração o subsequente uso generalizado de pastas de dente com fluoreto e outros suplementos dentários com fluoreto. Isso pode explicar porque alguns países que não fluoretizam as suas águas também viram grandes quedas nos índices de cárie”, afirmou a articulista de Harvard.

O professor de saúde ambiental da Escola de Saúde Pública T.H. Chan de Harvard, Philippe Grandjean, comentou o artigo de Davis e afirmou que embora se deva reconhecer os efeitos benéficos do fluoreto no desenvolvimento dentário e na proteção contra as cáries, é preciso perguntar se acrescentar o mineral à água, de modo que ele entre na corrente sanguínea e possivelmente no cérebro, é realmente necessário.

“Para responder isso, nós temos que estabelecer três prioridades de investigação. Primeiro, já que as cáries dentárias diminuíram em países com e sem a fluoretação da água, nós precisamos nos certificar de que estamos dosando a nossa água com a quantidade apropriada de fluoreto para os propósitos da medicina dentária, porém, não mais”, declarou o professor.

“Segundo, nós precisamos ter certeza que a fluoretação não aumenta os ricos de efeitos adversos para a saúde. Será que a água fluoretada faz mal em alguma circunstância? Por que mecanismos o fluoreto pode ser tóxico ao cérebro em desenvolvimento? Terceiro, nós precisamos descobrir se existem populações altamente vulneráveis ao fluoreto na água – bebês que se alimentam na mamadeira com algo feito com água de torneira, por exemplo, ou pacientes que passam pela diálise. Se esses indivíduos estão em risco, a sua água tem que vir de uma fonte que é baixa em fluoreto”, completou Grandjean.

Mas afinal, a água fluoretada faz mal à saúde?

Para a American Dental Association (Associação Odontológica Americana, tradução livre), “mais de 70 anos de pesquisas científicas tem mostrado consistentemente que um nível ideal de fluoreto em águas comunitárias é seguro e efetivo na prevenção da cárie dentária em no mínimo 25% das crianças e adultos”.

Entretanto, em seu artigo publicado na revista da Escola de Saúde Pública T.H. Chan da Universidade de Harvard, a PhD em genética Nicole Davis informou que o fluoreto pode ser perigoso em níveis elevados.

Segundo ela, o excesso do mineral provoca a fluorose: um conjunto de mudanças no esmalte do dente que vai desde pintinhas brancas não muitos perceptíveis a manchas e furos.

O fluoreto também pode ficar concentrado nos ossos e estimular o crescimento de células ósseas, alterar a estrutura tecidual e enfraquecer o esqueleto.

“Talvez o mais preocupante seja a pesquisa preliminar feita em animais de laboratório que sugere que níveis elevados de fluoreto podem ser tóxicos ao cérebro e às células nervosas. Estudos epidemiológicos em humanos identificaram possíveis links com déficits de aprendizado, memória e cognição”, alertou Davis.

Ela assinalou que a maioria desses estudos focou-se em populações em que a exposição ao fluoreto é maior do que aquela que geralmente acontece com os abastecimentos de água dos Estados Unidos.

De acordo com uma matéria do Jornal da Universidade de São Paulo (USP), desde o ano de 1974 a legislação do Brasil obriga a fluoretação da água em todas as Estações de Tratamento de Água (ETAs).

No entanto, como não tivemos acesso aos estudos epidemiológicos citados pela PhD em genética, não sabemos se a exposição ao fluoreto que acontece no Brasil é similar à que ocorre nos locais onde as pesquisas foram conduzidas.

A questão do câncer

Quando investigamos se a água fluoretada faz mal à saúde, não podemos deixar de abordar a questão do câncer, um tipo de doença temida (e com razão) por muita gente.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, uma possível relação entre a água fluoretada e o risco do desenvolvimento de câncer tem sido debatida há anos. Na lista a seguir, separada por períodos, você vai conferir como esse debate caminhou ao longo dos anos, conforme dados fornecidos pela organização americana:

  • 1990: O debate ressurgiu por conta de um estudo do Programa Nacional de Toxicologia dos Estados Unidos, que mostrou um aumento no número de tumores nos ossos (osteossarcomas) em ratos do sexo masculino que receberam água rica em fluoreto por dois anos. Entretanto, outros estudos em humanos e animais não mostraram uma associação entre a água fluoretada e o câncer.
  • 1991: Em um relatório, o Serviço de Saúde Pública (PHS) dos Estados Unidos indicou não ter encontrado evidências de uma associação entre o fluoreto e o câncer em seres humanos. O relatório baseou-se em uma revisão de mais 50 estudos epidemiológicos conduzidos em humanos e produzidos ao londo de 40 anos.
  • 1993: O Subcommittee on Health Effects of Ingested Fluoride (Subcomitê de Efeitos à Saúde da Ingestão de Fluoreto, tradução livre) do Conselho Nacional de Pesquisas dos Estados Unidos realizou uma revisão extensiva da literatura a respeito da preocupação entre o consumo da água fluoretada e o aumento do risco de ter câncer. A revisão envolveu dados de mais de 50 estudos epidemiológicos feitos com humanos e de seis estudos conduzidos em animais. A partir deles, o Subcomitê concluiu que os dados não apontavam para uma associação entre a ingestão de água fluoretada e o câncer.
  • 1999: Um relatório do CDC dos Estados Unidos também concluiu que os estudos existentes à data não tinham produzidos “evidências confiáveis” de uma associação entre o consumo da água fluoretada e o risco de desenvolver câncer. Posteriormente, estudos com entrevistas com pacientes com osteossarcoma e seus parentes mostraram resultados conflitantes, porém, sem indicar uma evidência clara de uma relação de causa entre a ingestão de fluoreto e o risco da doença.
  • 2011: a possível relação entre a exposição ao fluoreto e o osteossarcoma foi analisada por pesquisadores de uma nova maneira: eles mediram a concentração da substância em amostras de ossos normais, porém próximos a um tumor. Como o fluoreto se acumula naturalmente no osso, o método fornece uma medida mais precisa da exposição cumulativa ao fluoreto do que a memória dos participantes do estudo ou registros municipais do tratamento de água. A análise em questão não mostrou diferenças entre os níveis de fluoreto nas pessoas com osteossarcoma e nas pessoas com outros tumores malignos nos ossos. Estudos de base populacional mais recentes, feitos com o registro de dados sobre câncer, não identificaram uma associação entre o fluoreto na água para beber e o risco de osteossarcoma ou o sarcoma de Ewing (câncer que atinge os ossos ao redor deles).

As informações são do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos.

Referências Adicionais:

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Sobre Dra. Patricia Leite

Dra. Patricia é uma das nutricionistas mais conceituadas do país, sendo uma referência profissional em sua área e autora de artigos e vídeos de grande sucesso e reconhecimento. Tem pós-graduação em Nutrição pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é especialista em Nutrição Esportiva pela Universidad Miguel de Cervantes (España) e é também membro da International Society of Sports Nutrition. É ainda a nutricionista com mais inscritos no YouTube em português. Dra. Patricia Leite é a revisora geral de todo conteúdo desenvolvido pela equipe de redatores especializados do Mundo Boa Forma.

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